> CARTA AO LEITOR #36 | << anterior | próxima >>
> publicada em 06/05/2003; atualizada em 08/08/2005
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TIPOS MÓVEIS
MOVABLE TYPE GANHA SITE BRAZUCA E CONFIRMA FORÇA DO CÓDIGO ABERTO
Não deve ser muito errado afirmar que uma coqueluche do modelo Internet-paz-e-amor é atualmente o Movable Type, solução de publicação na web criada pelo casal Ben Trott e Mena G. Trott, provavelmente americanos, residentes adivinhe onde?: São Francisco, Califórnia, EUA. O MT, como é conhecido, ganhou a simpatia de blogueiros* de todo o mundo e se candidata a ser boa opção de publicação para empresas de qualquer porte. A novidade é o lançamento em março de 2003 de site em Português (será este o MTdoB?), por iniciativa de Luciana Bordallo e Evandro Maciel, com orientações nesta língua de ões e ãos sobre como instalar o bicho e sair publicando por aí.
ATUALIZAÇÃO DE AGOSTO/2005: O MTdoB não existe mais, em protesto pelo fato do MType adotar uma política de cobrança. Seus mentores simplesmente não renovaram o domínio junto à Fapesp. Leia a Carta 50 com detalhes sobre o tema e uma nova avaliação das qualidades do MType. Ainda vale a pena, mesmo pago.
O MT encanta, com certa razão, quem defende a característica aberta, propositiva e top-tchura que faz da Internet o que ela é. (Além do mais, o charme está nos detalhes, parece fazer uma singela homenagem a Eric Gill, brilhante humanista e designer que definiu a tipografia a partir da noção de tipos móveis, no seu livro “Essay on Typography”, de 1931).
software que anda
A felicidade do nome reflete também uma importante característica: o MT é um software que se espalhou no mais puro estilo open source. Esse conceito é explicado de forma muito simples no site do Open Source Initiative, em um único parágrafo, que pode ser traduzido mais ou menos assim: “quando programadores podem ler, modificar e distribuir o código-fonte de um software, esse software evolui...e isso pode acontecer em tal velocidade que, comparado com o lento desenvolvimento do software convencional, parece algo estonteante.”
O MT foi lançado em outubro de 2001. Menos de dois anos depois, é um hit, digamos, mundial. Nada mal para uma dupla marido-e-mulher. Bingo para o time do software de código aberto. De quebra, novo alento ao conceito do software livre, independente de grandes corporações.
copie e use
Você pode usá-lo gratuitamente se for sem fins comerciais. De empresas, ou para fins comerciais, é solicitado um pagamento de US$ 150,00. Mas se você utilizar a ferramentas para fins pessoais e fizer doações de valores variados ganha recursos ou privilégios também variados, como menção no site oficial do MT ou atendimento técnico personalizado e realizado pela equipe de desenvolvedores “da casa”.
Fora disso, as questões técnicas são resolvidas nos fóruns mantidos pela própria comunidade envolvida na brincadeira. Como em qualquer atividade ligada ao software de código aberto, esse tipo de suporte não representa custos adicionais e costuma resolver problemas de forma bastante consistente e amigável.
O MT já corria por fora e amparava as letras móveis de muitos importantes pensadores da web quando o Blogger atingiu seu apogeu como queridinho desse mundo blog, aqui ao sul do Equador. O Blogger é aquele software para criação de blogs pessoais que fez tanto sucesso nas praias e bocas brasileiras devido ao licenciamento realizado pela Globo.com no início de 2003, quase em conjunto com a operação de venda da empresa criadora para o hoje poderoso Google.
O Blogger foi o primeiro a nascer com esse enfoque de diário pessoal, mas quando foi negociado ao Google já não era o único. O que reforça a capacidade do MT de sair na rabeira e estar disputando a liderança desse segmento com grandes chances.
Conheci o MT pela primeira vez quando René, da Usina e do Radinho de Pilha, enviou uma citação de John Robb sobre o indiano Rajesh Jain a respeito da possibilidade de usar soluções baratas de "primeiro mundo" para resolver questões de "terceiro mundo", como é o caso nosso aqui no Brasil. Fui ler o interessante artigo do indiano, que aliás me inspirou a refazer esse site com uma "solução Google", que explico em um dos artigos do capítulo 21 do e-book. Mas fiquei atento mesmo ao MT que ele usava. Isso foi em agosto de 2002.
Só tempos depois, o MT passou a ser citado em algumas das listas das quais participo, como o próprio Radinho, embora muitos já o usassem há tempos. As referências são sempre de grande entusiasmo.
Se for para se basear nesse termômetro do boca-a-boca, pode investir no MT sem medo. Ainda não tive tempo e condições para fazer um teste, mas pretendo adotá-lo assim que possível.
(Com certeza, existem várias outras possibilidades, como lembra o Maratimba, a respeito da sua opção de publicação, o b2. Aliás, essa carta com tantas citações, via links, é um estilo de escrever que estou experimentando aqui e que vi pela primeira vez com ele.)
No caminho da simplicidade
O crescimento das soluções de publicação na web acessíveis a pessoas com pouco ou praticamente nenhum profundo conhecimento da tecnologia por trás dessas coisas é um movimento previsto no texto original do meu livro eletrônico, o Matriz de Negócios Internet, razão de ser deste site. A explosão dos blogs parece confirmar essa evidência simples.
há um notitia no meio do caminho
No caminho da simplicidade em prol do fundamental, a comunicação, uma opção tupiniquim é o Notitia, solução de publicação criada lá na rua do Brum, em Recife, Pernambuco, pela Newstorm. (A empresa avisa, em informe de março de 2003, ter fechado novo acordo societário, envolvendo a FIR Capital Partners, uma administradora de fundos de investimento, cujo endereço não foi possível encontrar.)
O Notitia viabilizou e na data de publicação deste texto (que você pode conferir lá em cima) é a base do importante site No Mínimo, o sucessor do outrora NO.com.br, a abreviação de Notícia e Opinião. Esse site sempre reuniu influentes jornalistas brasileiros. Foi provavelmente uma das primeiras e principais parcerias estratégicas feitas para impulsionar o Notitia para um patamar de padrão no segmento.
Parece que não deu os resultados esperados, nem com a ajuda de vários medalhões da elite pensante do país. Por quê? Provavelmente, esta é uma das muitas perguntas que o espírito open source, por trás do MT, consiga responder.
O Notitia é, hoje, uma das unidades de negócios do C.e.s.a.r., importante pólo brasileiro de desenvolvimento de software, abreviatura de Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, hoje sob coordenação do professor Sílvio Meira. O C.e.s.a.r. é apoiado também pela Finep, uma agência governamental.
A despeito de todo esse apoio, é evidente que o impacto do MT no planeta Brasil parece maior e mais consistente do que o do Notitia, apesar do último ter características de produção editorial tão interessantes quanto o MT. Como não sou do meio, e não testei detalhes dos dois, não consigo recuperar todas as sutilezas dessa história. Mas com certeza o Notitia não fundamentou sua estratégia de distribuição com esse espírito aberto.
Talvez seja o caso de se confirmar, comparando-se esses dois casos de desenvolvimento, que é mais interessante adotar a solução open source. Talvez isso seja uma pequena lição para as pretensões brasileiras no mercado internacional de desenvolvimento de software. Ou não. Ou cada caso é um “causo” e por aí vai...
bola rolando
O MT não está sozinho em formatos como esse mas parece ter conseguido uma boa dianteira. Enquanto isso, o Blogger some um pouco da cena, provavelmente se preparando para um retorno triunfal. Afinal, a empresa toda foi comprada pelo não menos famoso Google, outro exemplo de espantoso crescimento um mundo hostil.
O Google, no entanto, exemplifica uma postura nada aberta, ao contrário: a engenharia de busca criada pelo empresa deve ser hoje algo mais valioso que a misteriosa receita da Coca-Cola, o código-fonte do Windows ou segredos de gigantes similares.
(Em tempo: o sucesso da alma open source do MT, em relação ao Notitia e mesmo ao Blogger, não significa que o mesmo conceito possa ser portado para outros campos do conhecimento. O que vale para software costuma não funcionar com pessoas. Esse é tema para uma, duas, cem ou mil visões diferentes. Mesmo as condições objetivas para o desenvolvimento de software livre num país como o Brasil não é um caminho muito claro. Mas isso já é assunto para outra cartinha.)
sua empresa acompanha esse jogo?
Esse novo exemplo de uma operação baseada nos conceitos de software com código aberto parece novamente confirmar ser esse o melhor caminho para desmontar a couraça tecnológica que costuma envolver empresas de todos os portes. Apostar em soluções custosas e atreladas a um único fornecedor, por mais "parceiro mui amigo" que seja, é um risco e tanto. Esse tema também está detalhado no e-book divulgado neste site, no final da quarta parte.
É bom perceber que o texto consegue resistir e se manter atualizado, apesar de ter sido concebido e escrito há quase dois anos, agora. Continuo a defender e demonstrar (o que penso ser o diferencial do texto) que cabe às empresas apoiar o movimento em torno do código livre. Isso é, de certa forma, investir na própria liberdade, como acontece em qualquer sociedade democrática. Bonito, não?
A forma de fazer isso é, oras, usar software de código aberto sempre que possível. Assim como a forma de fazer democracia é ir na urna e votar. E a Internet é o ambiente que nasceu com essa vocação livre...
Mas você que é empresário ou responsável por decisões dessa natureza precisa agir nesse sentido. Em se tratando de software livre, geralmente não dói no bolso dizer sim, o que já é um grande começo.
* Blogueiro é o apelido dado a quem utiliza a ferramenta de publicação na web conhecida como blog.
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matriz de marketing, comunicação e negócios [ por Cassiano Polesi ]
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