> CARTA AO LEITOR #37 | << anterior | próxima >>
> publicada em 26/08/2003; revisada em 10/04/07
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O FIO DE ARIADNE
DICA DE ALTA TECNOLOGIA: USE MITOLOGIA GREGA NO SEU SITE
Pule para estas palavras-chave, neste texto: migalhas de pão, pensar editorial, João e Maria, Livia Labate, Felipe Memória, João Pedro Martins, usabilidade, arquitetura da informação
O mito de Ariadne deveria inspirar qualquer site com mais de cinco cliques. Com um fio de lã, o herói Teseu saiu do labirinto depois de matar o Minotauro. O truque foi desenrolar o novelo a partir da entrada. Ao oferecer senso de localização, seu site deixa visitantes à vontade para ficar mais.
Este site MatrizWEB adotou esse recurso no início de julho de 2003: a nova interface inclui a idéia da linha-guia, também conhecida pelo jargão anglo-saxônico de "breadcrumbs" (leia mais sobre isso, abaixo). O recurso atende principalmente a quem chega via mecanismos de busca.
Como poucos entram pela porta "da frente"—a famosa home-page—, um fio ligando qualquer ponto do site ao início é uma forma de localização espacial que menus não conseguem demonstrar. Uma idéia velha, simples e pouco utilizada.
Muitas vezes, isso é fruto da insistência de que o design de um site deve ser quase mágico, sendo capaz de localizar instantaneamente o usuário assim que chega ao ambiente. Na prática, não é isso que acontece.
O motivo é simples: um site, idealmente, não é uma casa, com porta da frente e um caminho lógico a percorrer. Um site é um amontoado de entradas, com mais ou menos informação sobre determinado assunto. Não importa por onde se entre, o visitante deveria ter condições de encontrar logo o que procura.
Para imaginar isso melhor, basta visualizar as fronteiras de uma fazenda. Ela faz limites com vários outros sítios e todos podem ser uma entrada. Isso é uma característica dessa mídia, a web. É inerente a ela.
Portanto, se os responsáveis por uma comunicação online via web pensarem como editores, ao invés de brigar com essa característica intrínseca, eles passam a ver isso como um recurso a mais. Qualquer editor usa os recursos que sua mídia oferece: rádios, jornais, televisão, revistas.
Essas mídias "velhas" sempre possuem recursos excludentes entre si. Cabe ao editor, o pensador responsável por isso, entender as características da sua mídia e se organizar a partir dela.
Os resultados nem sempre seguem essa lógica porque a decisão editorial e a capacitação do fazer da web é muitas vezes, senão a maioria das vezes, colocada nas mãos de produtores mais vinculados com o fazer publicitário ou o fazer do software. O pensamento publicitário geralmente pressupõe uma mensagem acabada, começo-meio-e-fim.
Por esse enfoque, o "caminho" de um site só pode fazer sentido através de um filminho em Flash (um software que gera sites com forte apelo visual), onde o visitante percorre as informações como um turista é guiado num museu qualquer.
Embora desprovido de ênfase na roupagem, o enfoque dos produtores de software costuma seguir o mesmo caminho, com até uma agravante: a noção de que tudo deve estar previsto por antecipação ferrenha de planejamento e nada pode ser modificado a posteriori sem um esforço desproporcional ao que toda mídia exige: agilidade, reflexos e capacidade para alterar rumos editoriais de acordo com seu próprio desenvolvimento.
Migalhas de pão versus o fio de Ariadne
A linha que você vê no alto da tela, indicando onde está "localizada" essa área de texto em relação ao site, é mais conhecida no jargão internacional como "breadcrumbs". A idéia vem da fábula de João e Maria: o menino espalhou migalhas de pão para demarcar seu caminho e não se perder na floresta.
Nomear o termo usando o mito de Ariadne é tão ou mais esclarecedor, com a vantagem de tentar fomentar idéias no mundo informática também a partir do pensamento greco-romano, em contraste com a enxurrada de nomenclaturas originadas no planeta anglo-saxão. É bom lembrar que isso é apenas uma brincadeira e não significa qualquer xenofobia em relação à palavras ou referências inglesas.
Se quiser saber quem está discutindo essas questões de usabilidade no Brasil em estreita sintonia com a comunidade internacional, entre em contato com as listas divulgadas no site da Lívia Labate em www.livlab.com (que, de acordo com o humor da dona, ora está em inglês, ora em português...:). Outra fonte interessante para consulta e acesso a várias outras referências é o PDF sobre navegação estrutural, produzido pelo designer Felipe Memória, que pode ser copiado em www.fmemoria.com.br/internet.asp.
Esse texto do Felipe é extremamente didático e capaz de esclarecer inclusive diferentes formas de tratar e entender a linha-guia. O site português www.usabilidade.com, criado e mantido por João Pedro Martins, é outra fonte de muita informação sobre o tema.
Arquitetura para uma informação sem cabeça?
O fio de Ariadne é um tema integrado naquilo que se convencionou chamar de Arquitetura da Informação, palavrinha da moda para designar uma atividade que os produtores de sites, no mundo inteiro, se esforçam para transformar em uma nova profissão.
Infelizmente, o discurso corrente, no Brasil e no mundo, parte do princípio de que a informação fornecida para a construção de um site corporativo vem de alguém que não sabe direito o que quer (vulgo "cliente"), cabendo aos produtores encontrar e entregar uma solução.
Fazer o quê? Não é culpa de quem produz se as empresas (os clientes desses produtores) não querem ou não entendem que devem exercer sua atuação na web como mídias—e, portanto, dotadas de capacitação editorial interna efetiva para isso.
Em tempo: capacitação interna significa a capacidade de decisão, não necessariamente capacidade de produção. Sabendo decidir (portanto, avaliar e cobrar resultados), é possível delegar a terceiros muitas ou todas as etapas de produção. Mas isso já é a filosofia que permeia o e-book divulgado neste site e assunto para outra cartinha...
> Leia ampliação desse comentário de agosto de 2003 no artigo AI, ai, ai... Apertem os cintos, o editor sumiu. Como avisa o último parágrafo, o tema merecia outra cartinha. Demorou um pouco, mas, promessa feita, promessa cumprida.
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