> CARTA AO LEITOR #45 | << anterior | próxima >>
> publicada em 15/03/2005, atualizada em 17/03/05
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SIMPLÍCIOS, 7; COMPLEXOS, 5
Google, GMail, tio Jakob, e a revanche da simplicidade estúpida
“É extremamente complexo ser
estupidamente simples”
—Guilherme Ambros Pereira, na lista Radinho de Pilha
Pule para estas palavras-chave, neste texto: Jakob Nielsen, Useit, Alertbox, Google: mapas & laboratório, Guilherme Ambros, Radinho de Pilha, René de Paula Jr., experiência do usuário, W3C
O SITE DE BUSCAS Google e seus recentes lançamentos, como a interface de gerenciamento de e-mail Gmail, parecem ser exemplos de uma revanche da simplicidade sobre o glamour—a pseudo-sofisticação de interfaces cheias de firulas em detrimento do essencial. Depois de estarem perdendo de goleada no primeiro tempo, o time dos simplícios vira o jogo espetacularmente e impõe seu estilo, além de jogar limpo e na bola.
Esse tipo de glamour adotado pelo time dos complexos costuma ser inflado pelo poder tecnológico. Mas a origem da estratégia está no poder publicitário, ou do marketing rasteiro, que com muita facilidade valoriza o impacto e a experiência sensorial imediata em detrimento de conteúdo e serviços realmente relevantes ao usuário.
Ok, nem sempre tecnólogos e marketeiros são “culpados”. Os próprios clientes, que costumam pagar essa conta como empresas contratantes de serviços de tecnologia e publicidade com marketing, podem ser os responsáveis.
Muitas vezes são os clientes que olham os sites mirabolantes da concorrência e querem por que querem algo ainda mais mirabolante para seu próprio negócio. O coitado do usuário final, o verdadeiro cliente para o qual todos deveriam prestar contas, sofre com tamanha “dedicação” em prol da tal experiência.
A constante valorização das ações da empresa Google parece ser prova do sucesso de ir contra essa maré e adotar o estilo quase rastaqüera de fazer comunicação online. Estilo, aliás, preconizado há anos por uma corrente de pensamento representada talvez pelo guru mundial da usabilidade, Jakob Nielsen, no seu site pessoal e promocional, Useit, turbinado pelo seu monolítico recado agora quinzenal, Alertbox.
A “estética” Gmail é um reforço à tese, bem como o banho de eficácia do sistema de mapas (ainda em fase beta e restrito aos EUA), o maps.google.com. E-mail e mapas são apenas algumas das criações lançadas entre o final de 2004 e início de 2005 pelo poderoso laboratório de novidades do Google.
O Gmail surpreende não porque oferece firulas e alegorias mas pelo o que efetivamente propõe e “inova”. De certa forma, o Google inova ao aplicar com mais eficácia tecnologias disponíveis já há alguns anos. Simplicidade e eficácia parecem ser a marca registrada da empresa.
[O Google e seus brinquedos “inovam” em termos, pois muitas das propostas conceituais são repercussões de soluções adotadas em várias outras iniciativas lançadas na web, geralmente por autores com menor poder de fogo que o sabujão online, mas não menos geniais. Feita a ressalva, fica a percepção de que a empresa, ao menos, sabe ver fogo onde há fumaça e ainda é capaz de fazer limonada a partir de alguns limões, mesmo banhada por milhões (que ajudam, claro, mas podem também “atrapalhar”). Fecha ]
Com seu estilo de adotar interfaces simples mas não simplórias, em seus poucos anos de existência o Google assusta impérios como a Microsoft, ou ícones da internet, como o Yahoo (que tenta unir tecnologia e simplicidade mas acaba perdendo a mão, e descambando em muitos pontos para uma interface simplória).
A mágica por trás do sucesso “gugliano” é, sim, muita tecnologia. Mas a magia maior é também o discernimento de que o incrível aparato tecnológico que permite ao Google criar tantas novidades está a serviço do usuário final, e não acima dele.
O que importa, como sempre, é a pergunta quase besta: funciona?
Ou melhor: funciona de verdade, messsssmo?? Ou: não é apenas um remendo prematuro de uma tecnologia promissora, porém mal resolvida ou implementada, talvez em resposta à pressa anabolizada de um mercado de informática à beira de ataque de nervos???
A política do Google está fazendo a diferença. E, surpresa, em alguns milhões de dólares, travestidos em ações valorizadas ao vento, nesta segunda etapa do jogo internético pós-bolha. Essa filosofia é amparada pela vistosa solidez do tio Jakob e a noção sempre subliminar em seus artigos de que uma solução deve antes de tudo resolver o problema do usuário, seja qual for, de forma simples, rápida e eficaz.
Tema novo, assunto velho
A luta surda entre o poder tecnológico e os reais objetivos de um meio de comunicação—atender ao leitor—não é novidade. Esse assunto é um dos tantos temas que integram o ebook “Matriz de Negócios Internet”, que deu origem a este site (veja sinopse Conteúdo e técnica, e “Tecnologia e tecnocracia”, publicados em junho e julho de 2002, respectivamente).
O texto avisava que a história das mídias sempre se pautou por uma fase onde o poder tecnológico (geralmente ligado ao meio) tenta se sobrepor aos seus próprios fins, ou seja, o de viabilizar aquilo que é sua razão em determinado momento. Falando simples: houve tempo em que gráficos “mandavam” mais do que jornalistas em uma empresa de jornal.
A web é um ambiente de mídia que se confunde com a tecnologia de informática. É interessante entender quem dá as cartas e como a história irá, por sua vez, impor seus próprios coringas, pois eles sempre aparecem onde menos se espera.
O estudo consolidado no “Matriz...” reforça a convicção de que a web evolui guiada mais pela porção mídia—seu lado humano—do que sua porção tecnológica. O fato da web ser, basicamente, tecnologia de informática, é quase um acidente histórico.
Praticamente todos os veículos de mídia, hoje, são gerados a partir de tecnologias de informática, diferenciando-se apenas quanto ao suporte final. Web é a “mídia” da internet; não é tecnologia, sistemas, informática, embora se confunda e seja afetada pelo desenvolvimento destes mercados.
O exemplo do sucesso do Google ilustra o conceito: a empresa investe pesado em tecnologia, mas tem imenso cuidado em ver a diferença de perceber o usuário efetivamente com um humano, naquilo que a humanidade tem de mais óbvio.
As mídias dão certo quando conseguem se integrar à linguagem e cognição de humanos normais, sempre foi assim, desde o advento dos sinais de fumaça. Não há porque deixar de se agir dessa forma, mesmo banhado por alguns milênios e algumas tecnologias mais novas.
Em outras palavras, a tecnologia mais sofisticada geralmente surge quando ela é ignorada por pobres mortais. Ou, na definição preciosa do ‘engenheiro por profissão, cientista por vocação e marketeiro por opção’ Guilherme Ambros Pereira, é “extremamente complexo ser estupidamente simples”, frase genial, pérola de uma das milhares e calorosas discussões sobre o tema, citada neste caso na lista Radinho de Pilha.
experiências com a “experiência do usuário”
Na outra ponta da discussão está o conceito de “experiência do usuário”, bola levantada também no Radinho, por René de Paula Jr., o altamente produtivo mentor e moderador da lista, que também responde pela Usina. Neste quesito, entra em cena uma das várias pontas do iceberg do poder tecnológico, na forma da guerra de browsers.
Guerra atual, já de anos: o triller é se o poder tecnológico vai impor um padrão atrelado a uma única empresa, como é o caso do Internet Explorer, fornecido pela Microsoft, ou se haverá um reforço à política centralizada no W3C.
O W3C é o consórcio que tenta organizar a web no planeta. Seu objetivo é criar um padrão aberto e respeitado por todos, mercado e desenvolvedores, a partir do qual todos obedecem, uma vez que o resultado em tese será benéfico não apenas para as empresas como, e principalmente, para os usuários. Muita gente boa é cética quanto a essa política, até por que a iniciativa purista costuma ser contaminada pela própria política humana.
Como sempre, a simplicidade é complexa. Por isso o tema inicial deste artigo, a simples simplicidade, precisa se desmembrar em várias questões paralelas.
Ou, visto pelo mote do próprio René, durante a tal discussão: “Fica a pergunta: você cria para a maioria dos browsers (e tem que adotar um denominador comum, mais pobre) ou cria para a maioria dos usuários, e garante a eles uma experiência mais rica? Opção interessante...”
Bom motivo para continuar o assunto em uma próxima cartinha, a conferir. Afinal, o time dos complexos começou o jogo internético abrindo grande vantagem no placar; a virada dos simplícios veio à tempo, mostra que o time não está morto, mas o jogo não acabou. Peleja de gente graúda da grana, nessa arena não se pode desconsiderar tapetão, canelada e juiz ladrão. Vale flâmula: corações e mentes (e $) de milhões de usuários planeta afora...
Enquanto isso, é de bom tom transformar a frase do Ambros em um mantra para um século que promete zilhões de emoções estupitamente complexas, haja vista o que já colhemos em menos de 5% dele.
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matriz de marketing, comunicação e negócios [ por Cassiano Polesi ]
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