> CARTA AO LEITOR #46 | << anterior | próxima >>
> publicada em 12/04/2005, última atualização: 21/07/2005
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O QUE É QUE HAVAIANA TEM?!
gloriosa luta inglória do wiki pela utopia da edição comunitária, ano 10
Pule para estas palavras-chave, neste texto: Ward Cunningnham, Jimmy Wales, Wikipedia, wikiwiki, zen-budismo, wabisabi, Ana Maria Brambilla, Parla, incubadora Fapesp, CuDeBebado, Caio Barra Costa, Tupi, André Passamani, Caio Túlio Costa, Dicas-L, Notícias Populares, lendas urbanas
WIKI é uma ferramenta de publicação na web que parte da noção de edição comunitária. A mágica se viabiliza através de um sistema de edição que permite, em tese, a *qualquer* visitante modificar as informações via browser, nosso conhecido “navegador” de “páginas” na rede internet. O nome vem da palavra wikiwiki, que significa rápido, na língua nativa do Havaí; o software que gera o wiki foi criado em 95, por Ward Cunningnham para o Portland Pattern Repository.
*** O mais influente projeto realizado até agora através desse sistema é a Wikipedia, uma enciclopédia mundial em várias línguas. A CNet publicou nota informando que o Yahoo agasalhou o projeto, na forma de uma doação, que passa a ser hospedado em seus servidores, garantindo uma estabilidade até então sujeita a algumas chuvas. A notícia ainda está na home do blog da empresa dedicado ao segmento de buscas, o Yahoo Search. Os verbetes da enciclopédia serão apresentados acima das consultas de busca. A notícia foi aplificada pelo blogueiro Pedro Dória, no site NoMínimo.***
***A entrada do Yahoo dá músculos e ampara de vez o casamento perfeito entre a idéia wiki e a produção de uma enciclopédia mundial—ou seja, uma solução que encontra um bom problema para resolver...:). A Wikipedia é mantida pela Wikimedia Foundation, uma organização sem fins lucrativos oficializada em junho de 2003 e sediada na Flórida, EUA. Além da enciclopédia, a entidade tenta viabilizar várias outras iniciativas, listadas no verbete a seu respeito dentro da própria Wikipédia: dicionários, citações, livros-textos e outros.***
O conceito wiki é ligado à noção da democratização radical da informação, aliado ao viés negativo de que o detentor dos “meios de edição” possui mais poder do que o leitor, pela possibilidade de controlar as informações publicadas. Esse conceito com cheiro de esquerdismo anos 70 (pelo menos aqui no Brasil) até era verdade antes da web; na era dos blogs, deixou de ter validade.
Atualmente, milhares e milhares de pessoas podem ter um meio de comunicação barato de manter e com alcance mundial, uma democratização que ultrapassa o sonho do esquerdista mais sonhador...:) (Tá bom, tá bom, veículos de massa possuem mais capital e, bem, mais massas...)
Mas o mundo gira e a Lusitana roda. E contra o tom do individualismo extremo da blogsfera, o co-fundador da Wikipedia, Jimmy Wales dá o tom do próximo passo do projeto: um site de edição de notícias, franco e aberto a qualquer um. Isso é uma “afronta” à sólida (e, digamos, inerente) noção de centralização editorial, característica inata a todas as mídias ao longo da longa história de já alguns séculos. Parece que a web vai aos poucos mudando o mundo como poucas mídias conseguiram fazer...
***A pesquisadora Ana Maria Brambilla escreveu um artigo no Webinsider sobre esta nova tendência, batizada de jornalismo open source. Aproveite o embalo e conheça o Parla, um espaço de jornalismo colaborativo coordenado por ela e inicialmente agasalhado pela incubadora de projetos da Fapesp. [Ana avisa que a nova casa do Parla adota a ferramenta Drupal. “O Parla não está mais com a Fapesp por uma questão de usabilidade. O Plone era de difícil manuseio pelos alunos”. Taí um depoimento interessante...:)]***
vandalismo e reconstrução contínua
A utopia da edição comunitária sem elos de comando se integra quase mimeticamente ao conceito de wiki. Porém, existe um certo muchocho sobre o fato de haver muitos vândalos, pessoas que se aproveitam da liberdade para “destruir” o que foi feito.
O anonimato e a distância que caracterizam a internet facilitam esse tipo de atitude, mas não é por excesso de liberdade que ocorre o descambamento para alguma libertinagem grosseira e inconseqüente. Sob enfoque jornalístico e midiático, não é culpa dos wikis que isso aconteça, é uma característica dos veículos de comunicação—qualquer um deles.
Um wiki, pela sua própria natureza, é um espaço de intervenção individual e autônomo (coisas ligeiramente diferentes), amplo, geral e irrestrito. Ou seja, é tudo o que uma mídia “tradicional” não gosta de ser... É interessante perceber essa sutileza na prática.
ditador editor, editor ditador
Sua empresa pode aproveitar bem a ferramenta como instrumento de criação e gestão, mas é preciso entender certos limites. Se o entendimento da web é o de veículo de comunicação, a aparente anarquia protagonizada pelo wiki é quase uma aberração. Sites—ou jornais, ou revistas, ou rádios ou TVs—, quando organizados como veículos de mídia, deveriam incluir na receita do bolo a figura algo romântica, mas nada singela, do ditador, digo, do editor.
Não existe veículo de comunicação que não tenha um rigor quase militar na sua produção, uma linha de comando muitas vezes de força algo brutal. Veículos mais sofisticados destacam uma pessoa específica para essa função, e dão a ela um nome pouco mais palatável: secretário ou secretária de redação. Não existe mídia, de esquerda, de direita, porão ou sótão, que consiga cumprir seus prazos sem essa figura singular.
[Meu “debut” profissional em um jornal de grande porte brasileiro foi na Folha, quando o ex-diretor geral do UOL, Caio Túlio Costa, era o secretário de redação. Na época, ele era apelidado, numa mistura de ironia e carinho, de Caio Getúlio, um tanto pela função, outro tanto pelo seu jeito mesmo. Devo muito a ele, principalmente por ter sido poupado em uma brincadeira típica de foca de redação: no meu primeiro plantão de carnaval, ainda como diagramador, num momento de pouco a fazer inventei uma notícia sobre um russo perdido nos morros cariocas, uma gozação a respeito de uma comitiva russa em visita ao Brasil, na época. A brincadeira foi sofisticada porque dei um jeito de passar a informação via os antigos teletipos, cujas cópias eram colocadas em gavetas sobre mesas de cada editoria, o que deu um aspecto verossímil à coisa. Só não fui demitido, talvez, porque o texto estava suficientemente engraçado ou por simples espírito carnavalesco... ufa! :)]
Secretariar o andamento de uma redação é uma operação de guerra. Se você quer fazer com que sua empresa use seu site como meio de comunicação, será necessário entender a fundo essa singularidade das mídias.
Esse é um dos temas discutidos no ebook que originou este site, particularmente nos dois artigos dedicados à entrevista feita com o então editor do jornal Valor Econômico, o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva. O assunto é interessante e merece ser retomado em um artigo mais específico, principalmente por que o tema já foi parcialmente citado no texto sobre a arquitetura de informação (Fio de Ariadne), em 2004.
Wiki como ferramenta de gestão
Nem tudo está perdido para o uso de wikis na sua empresa. Se você acredita em uma equipe motivada, o wiki pode ser uma excelente forma de criar um centro nervoso de colaboração, rascunhos de idéias, socialização e coisas assim. Equipes na prefeitura de São Paulo, que como muitas instâncias públicas no Brasil estão lotadas de equipes sintonizadas com o espírito do software livre, fizeram uso dessa forma de sinergia, uma experiência que André Passamani poderá descrever em detalhes.
Como central de idéias, a ferramenta pode ser imbatível e a Wikipedia é uma demonstração da chama do valor colaborativo. Além do mais, é um software gratuito, no melhor estilo de código disponível para quem quiser, sem custos de direitos autorais, embora existam versões ou aproximações do conceito que sejam mais sofisticadas e até cobrem algum din-din para sua utilização ou hospedagem.
Claro que você poderia tocar um projeto colaborativo através de um blog. A diferença parece ser a noção extrema do wiki ser algo sempre em ebulição.
Além do mais, o wiki prescinde qualquer forma de cadastro para a edição. Isso pode ser um fator positivo para quem está simplesmente atrás de um grande papel virtual onde todos possam dar palpites a qualquer hora, tempo e lugar. E sem a dor de cabeça de criar usuários e senhas, e a administração que está por trás disso.
Em resumo, é um ponto em prol da idéia comunitária que de certa forma foi e ainda é a roda que move a web no planeta. Com um wiki, é possível radicalizar ao máximo a idéia de “desenvolvimento colaborativo de conteúdo”.
Aliás, é importante lembrar que a Wikepédia *não* é uma mídia, no sentido exato do termo. Talvez isso explique porque essa forma, digamos, anárquica de edição esteja dando tão certo nesse caso, tomando-se por base a quantidade de entradas já publicadas e a força do projeto como um todo.
É bom ter algum ceticismo sobre essa total liberdade. Não é possível ter noção exata de como a Wikipédia está se organizando em termos de produção editorial.
Algum centralismo é necessário em algum momento e isso não é demérito algum. É uma necessidade intrínseca. A própria política editorial da fundação WikiMedia é uma orientação e portanto não deixa de ser uma filosofia de ação, idêntica a uma política fechada ou apoiada em um projeto, como é o caso de vários jornais no planeta.
havaí zen
O wiki é uma invenção criada em 95, pelo programador Ward Cunningnham. Fez 10 anos neste 25 de março último, totalizando mais de 30.600 páginas. O histórico do Sr. Cunningnham é respeitoso, mesmo para quem nada sabe de tecnologia de programação, como é o caso deste escriba, abaixo linkado. Noves fora, é interessante prestar atenção à idéia do Extreme Programming, que deve ter algumas raízes ou algumas passagens por lá.
O nome original, wikiwiki, é a palavra havaina para “rápido”, segundo definição editada por alguém no próprio site. Filosoficamente, pega carona em conceitos Zen-budistas, ampliados pela idéia japonesa de wabisabi, algo difícil de traduzir em termos ocidentais.
A idéia gira em torno de ver beleza na imperfeição e no efêmero. Uma área wiki não dá garantia a ninguém que permanecerá a mesma no minuto seguinte. E a imperfeição ou o erro de alguém não é necessariamente algo a lamentar, ao contrário.
Quem primeiro me apresentou esse mundo de caráter livre foi Caio Barra Costa, programador memético, colaborador da revista eletrônica Magnet e da Macmania, a grande representante editorial do mundo Apple no país. O primeiro exemplo de wiki que vi foi no ambiente criado por ele, anos atrás, naquele que é considerado o primeiro wiki brasileiro, o http://CuDeBebado.cabaretvoltaire.com, como lembra a informação publicada por um famoso personagem da internet brasileira, o Tupi Nambá, na própria Wikipedia.
A lista Dicas-L, ligada à Unicamp, também gostou da ferramenta e mantém em seu site um bom descritivo e histórico do wiki. E aqui você pode conferir uma pequena lista de êwikis em portugus, embora isso possa estar melhor atualizado via uma busca nos Googles da vida.
O aviso na página frontal do CuDeBebado, não poderia ser mais explícito: “? não tem dono, logo é um nome apropriado para um wiki” (substitua o ponto de interrogação (?) pelo nome do wiki e você poderá entender melhor a frase...:).
[Foi do Caio Barra também o primeiro convite para entrar no Orkut, muito antes do bicho virar febre brasileira; parece que seu trabalho de programador “memético” o leva a conhecer as fronteiras de algumas tecnologias, além do fato de ele ser um pesquisador com passagens na importante Escola do Futuro, da USP, em São Paulo. Dentre outras coisas, Caio Barra se diverte e diverte os outros criando jogos e outras coisas lúdicas, algumas delas à disposição do seu site pessoal, o Cabaret Voltaire, para uma olhadela. Aproveite.]
O CuDeBebado ainda está ativo e operante, mesmo depois de uma lamentável ausência de becape, o que fez desaparecer alguns comentários interessantes. Mas ainda estão publicadas coisas folclóricas, como o depoimento de jornalistas do finado “Notícias Populares” sobre como inventaram e sustentaram durante dias a manchete do “bebê diabo”, uma das muitas lendas urbanas paulistanas descritas por ali.
Péssimo exemplo de jornalismo; ótimo caso do que a web é capaz. Talvez o Wikinews seja o verdadeiro bebê diabo da mídia mundial, a conferir.
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matriz de marketing, comunicação e negócios [ por Cassiano Polesi ]
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