> CARTA AO LEITOR #60 | << anterior | próxima >>

> publicada em 04/Ago/06; atualizada em 30/jan/08

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>> Uma idéia na cabeça e um blog na mão: Aproveite e leia outro texto sobre o blog do Reinaldo, um ano depois.

PARA QUEM CHEGA DO GOOGLE: o texto abaixo é de agosto de 2006. Por algum motivo, numa busca como “Azevedo e Nassif”, o Google lista apenas este artigo, em detrimento do mais recente, de agosto de 2007, reforçado acima. Por isso, o texto está pontuado de atualizações como esta, que buscam atenuar sua ingenuidade inicial. Já que não consigo alterar os resultados do buscador mais popular, fica aqui este recado.

Para minha surpresa, o artigo é um retrato da evolução das coisas e de como a pluralização das idéias via blogs é algo cada vez mais fundamental nas sociedades contemporâneas. Aqui no Brasil, felizmente, temos a genialidade de Reinaldo Azevedo.

Em pouco menos de um ano, aprendi mais sobre jornalismo e política como leitor de blogs do que durante toda minha vida estudantil e profissional. Talvez eu tenha sido apenas um mau aluno. Ou não. Vida longa ao Rei. [Nota de 30/1/08]

Blog + Jornalista = blogueiro ou tribalista?

azevedo e nassif, jornalistas trocam papel pela aldeia eletrônica mundial

Jornalista blogueiro não é novidade. Mas é interessante ver a migração para o mundo dos blogs de reconhecidos colunistas da imprensa brasileira. Luis Nassif deixou a Folha de S. Paulo para se concentrar nos seus próprios negócios de comunicação. Reinaldo Azevedo fechou sua empreitada empreendedora e virou a marca de si mesmo.

¶ O leitor ganha em diversidade de opiniões, num nível nunca visto aqui em ano de eleições. Se você cuida da comunicação da sua empresa, fique atento. As coisas não estão mudando; já mudaram. O mundo é uma aldeia.

EMPRESAS JORNALÍSTICAS, que construíram o chamado quarto poder em torno de produtos de papel, estão com sérios problemas estratégicos à vista e isso já vem de uns bons 10 anos. A tal internet começa a atingir esse domínio de uma forma tão impactante que o estrago começa a ser irreversível.

Quando o papel eletrônico for uma realidade inevitável — como celulares são hoje em dia — o futuro dos jornais provavelmente se resumirá a ocupar o nicho dos produtos de luxo no mercado editorial. Ou, na outra ponta, o nicho dos folhetos de informação, perecíveis e baratos, embora seja difícil imaginar como será barato algo feito de papel.

Por outro lado, estamos cada vez mais tribais, no bom sentido. Um blog permite exercer uma conversa com qualquer um que queira parar e ouvir. Como antes na velha aldeia, mas agora em nível mundial.

Essa é a impressão que um leitor comum tende a fazer do movimento de “libertação” demonstrado, por exemplo, pelo importante jornalista brasileiro Luis Nassif. Depois de 15 anos como colunista da Folha de S. Paulo, ele abandonou o barco dia 30 de julho/2006 e pulou de vez para a vida blogueira, inaugurada duas ou três semanas antes.

Luis Nassif Online é o nome da coisa, mas o acesso é via o nome mesmo: www.luisnassif.com.br. A proximidade com a antiga casa se mantém, o blog faz parte do portal UOL.

Atualização tardia: Nassif voou para o iG, o portal que abriga muitas almas alinhadas com o governo Lula. Talvez não signifique nada, talvez signifique muito.

Na Folha, ele era lido pelo poder, pois uma publicação dessa importância sempre foi leitura obrigatória em Brasília. O poder irá acompanhá-lo via blog?

Acostumei-me a ler suas colunas durante meu café matinal. Adoro um jornalzinho no silêncio da manhã. Aprendi muito com ele ao longo dos últimos 15 anos.

E agora? Sinto que a Folha, como produto, ficou mais pobre... Não sei o que será do meu café quando os economistas João Sayad e Paulo Nogueira Baptista Jr. deixarem o jornal em troca de publicar seus pensamentos na web, se é que já não fazem isso. Eles são do time da contracultura econômica, fazendo o contraponto necessário à orientação corrente. Leitura vital.

Também é o caso de perguntar: e agora, Nassif?

Se por um lado ele pode perder visibilidade no centro político do país, por outro, seu movimento estratégico inclui as vantagens de maior liberdade de ação. Sem os compromissos contratuais de um grande jornal, o “turco”, como é conhecido nas suas rodas de choro, pode ampliar seu leque de parcerias comerciais.

Ele é um raro exemplo de jornalista e empresário, que se mantém jornalista mesmo sendo empresário. Difícil essa arte. Turco criou e dirige a agência Dinheiro Vivo, case de empreendimento dirigido, a tal estratégia de nicho.

Também inventou um ciclo de seminários denominado Projeto Brasil. Na sua origem, tenho a impressão de que era também um jeito de produzir pautas para sua própria coluna. De qualquer forma, é um empreendimento que hoje conta com apoio de várias empresas e tem o saudável foco de buscar soluções para tirar o país do buraco em que se encontra. Não sei se consegue...

Mas, livre das amarradas da Folha, parte para um acordo com os jornais integrados à APJ (Associação Paulista dos Jornais) de publicar textos sobre problemas brasileiros em 16 jornais do interior do Estado de São Paulo. O aviso está informado na nota de despedida da Folha, em seu blog, publicada dia 28 de julho de 2006.

Não deixa de ter alguma coerência. Afinal, a ida ao interior reforça a visão costumeiramente propagada em seus textos sobre a importância da economia “real”, a economia das pequenas e médias empresas.

Em paralelo à atividade empreendedora, é interessante perceber como o jornalista antes limitado pelo espaço físico e político da Folha começa a ampliar seu foco editorial. Escrever no próprio blog é muito diferente do que escrever no palco iluminado da grande imprensa.

Luis — que de quebra respeita muito Januário — tem agora uma liberdade temática que não conseguia antes, em virtude do próprio espaço e da responsabilidade de estar vinculado à empresa jornalística que o fornecia. No seu blog, abre espaço para comentários de leitores; pontua com mais rapidez as questões econômicas; retoma suas crônicas pessoais e musicais... Espaço não falta.

No ambiente do blog, tudo muda. E o hábito do leitor também. Agora, preciso abrir uma janela para ler durante o dia inteiro o que antes só lia pela manhã...

Blog do Reinaldo, ácido verbal em doses diárias

Outro exemplo, esse, sim, grande exemplo de liberdade de pensamento incondicional, é dado por Reinaldo Azevedo. Depois de fechar a revista e site Primeira Leitura, assumiu de vez sua porção artística. E despiu a roupa do empreendedor. Mais saudável assim, talvez.

MANDANDO BEM! Em pouco mais de três meses de existência, o blog do Reinaldo já cresceu o suficiente para fazer parte do portal da revista Veja. O trabalho realizado durante o setembro negro brasileiro (2006) dá um banho de discernimento jornalístico e pluralidade política às vésperas da eleição. Quem acompanhou percebeu como suas posturas, análises e cobranças pensadas no calor dos acontecimentos foram adotadas por vários atores da cena brasileira, políticos e jornalistas. De quebra, Reinaldo brindou seus leitores com um dos maiores furos da imprensa nos últimos tempos, a identificação de um dos envolvidos no caso do pseudo-dosssiê divulgado pela revista IstoÉ. E, ora veja, ao contrário do que vai abaixo, fez isso de forma muito sutil. Mas com um resultado paquidérmico. [Nota de 25/09/06]

Seu blog, www.reinaldoazevedo.com.br, intitulado Blog do Reinaldo Azevedo, continua a ser a metralhadora giratória conceitual que muitos se acostumaram a ver no finado PL. A diferença é que, agora, ele é uma máquina pessoal de criar polêmicas.

MANDANDO BEM, II: Em 24 de junho de 2007, às 18:57, o blog do Reinaldo fará exatamente um ano de vida. Brasileiros deveriam soltar fogos e comemorar o primeiro aniversário do mais importante veículo de comunicação criado nos últimos tempos, na web. Mais que jornalismo, seu blog é uma lição de vida e, principalmente, uma aula diária sobre teoria política, filosofia e outras coisas fundamentais, mas que legamos ao léu, como a lógica. Imperdível leitura, no Brasil e no mundo. Reinaldão é um dos mais interessantes pensadores do planetinha azul, na atualidade. Chute? Hum... não: mera estatística da web. E, sim, ele é brazuca da gema. E, sim, é daquela geraçãozinha triste e acabrunhada da primeira metade dos anos 60. Grande Rei, redime nossa alma perdida...:)

Ando bem relaxado nesses tempos bicudos, mas, se o astral permitir, o aniversário desse blog vital valerá mais um artigo deste escriba zarolho, sobre coisas como nova imprensa, velha imprensa, web 2.0 e outros pitacos, todas inspiradas pelo balaio do tio Rei. [Nota de 9/05/07]

Mais leve do que quando chefiava uma equipe, talvez ainda mais solto, destila doses cavalares de ácido verbal. Tudo muito coerente e racional. Sutileza, zero.

Reinaldo reinventou-se como marca de si mesmo, o que não deixa de ser um empreendimento. E, sim, com um quê mais artístico, mais irônico, trata a web como um radialista trata seus ouvintes. Com carinho ou ferocidade. Ele tem especial gosto pela audiência, que, diga-se de passagem, é bem ampla e respeitável. Agressiva também.

Mais: cumpre um trabalho de crítica da grande imprensa, em paralelo ao trabalho de centralizar várias reportagens publicadas em grandes jornais brasileiros, Folha, Estado e Globo, os dois últimos em especial, onde também escreve colunas no velho e bom papel. É como um serviço de clipping, com noção editorial e opinativo, regado a porções generosas de soda cáustica.

Atualização: Reinaldo agora escreve na revista Veja; deixou de escrever no Estado e no Globo.

Alguém precisa fazer isso, e a web é o palco generoso.

Leitores atentos agradecem. Notívago convicto, Reinaldo normalmente publica notas retiradas desses vários jornais, que ele normalmente lê já na madrugada, na “calada da noite”, logo que as versões online são publicadas.

Enquanto as pessoas dormem ou voltam da balada, ele se diverte teclando comentários ácidos, com um viés que muitos classificam como “de direita”. As madrugadas do Rei não são nem um pouco caladas.

Mais ainda: analisa erros e acertos de Serra, Alckmin, Heloisa Helena e, claro, fustiga Lula e arredores com todas as forças. Pau puro. Uma lição de marketing político, com muitas pitadas de teoria política, ou, no mínimo, uma proposta nessa direção.

E ele faz isso sozinho, com a cabeça costurada por uma operação comentada no melhor estilo “bigbrodiano” global, mas restrito apenas às palavras. Detalhe: sem apoio da suspeita Fundação Ford (que defende e ajuda a criar no Brasil o discutível padrão americano de programas sociais baseados em classes “raciais”), ligada ao conhecido Observatório da Imprensa, que há anos existe para realizar algo semelhante.

A independência do Reinaldo é muito saudável. Permite a nós, pobres mortais, o conhecimento comparado da produção jornalística e um contato – ou melhor, um chacoalhão – com outras idéias, a partir de seus pontos de vista polêmicos.

Afinal, essa história de “esquerda” e “direita” tem história. Vale a pena repensar alguns dogmas, rever conceitos empoeirados dos tempos estudantis, anos 70, retro.

Os dois acima são exemplos bem tardios de migração para um ambiente online. Aqui nas terras brasilianas, já existem várias iniciativas bastante conhecidas, como o Blog do jornalista Ricardo Noblat, aninhado no portal do jornal O Estado de S. Paulo, e o juntado de pensadores jornalísticos nacionais, o NoMínimo, sucessor do antigo “Notícia e Opinião”, o NO. Sem falar do BlueBus, autoproclamado o primeiro blog brasileiro.

De todos, o NoMínimo continua a ser um banho de design e estilo, primando pela limpeza gráfica. Estilo e design, aliás, que penso ter sido a falta fatal ao Primeira Leitura. Agora, já foi.

NOMÍNIO JÁ ERA: O NoMìnimo foi fechado em junho de 2007. [Nota de 30/1/08]

Tudo bem: na nova vida online, não há últimos, tampouco primeiros. Há o que existe. E Reinaldo consegue ser ácido como poucos no panorama do pensamento tupiniquim, com forte carga de conhecimento teórico e cultural – adora dar peteleco na cabeça de pessoas que costumamos chamar de “intelectuais”, embora ele sempre avise que não é um.

Tudo indica que as eleições deste ano terão, talvez pela primeira vez no país, uma influência da opinião online como nunca se viu. Um novo quarto poder, lado B, turbinado.

A oportunidade da diversidade

A vida no planeta anda bem complexa, tanta pluralidade faz um bem danado. A web presta, neste novo século, um serviço de diversificação único.

Países em formação, de “cabeça aberta”, pluralistas por história e natureza, como este Brasil brasileiro (hum... será?), poderão fazer grandes limonadas a partir desses limões ofertados pela web. Outra janela de oportunidades que passa pela nossa frente esplêndida, a conferir.

E a comunicação empresarial, como fica?

Qual será o impacto sobre a atividade de comunicação institucional dessas mudanças? Considere o contexto: o produto jornal poderá virar uma mercadoria de luxo e os grandes pensadores e produtores de informação, antes ligados a este quarto poder, estão cada vez mais online.

Pense nisso, cadastre-se e leia o paper que produzi para o 6o. Prêmio de Mídia do Estadão, edição 2003. Tenho a impressão de que ali estão algumas informações interessantes sobre esses tempos delicados :)

Cp

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