> CARTA AO LEITOR #65 | << anterior | próxima >>

> publicada em 26/08/2007 | atualizada em 10/dez/07

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>> Tribalistas dos rios da minha aldeia global: Aproveite e leia outro texto sobre o blog do Reinaldo, um ano antes.

Uma idéia na cabeça e um blog na mão

blog guerrilheiro incendeia o país armado com a palavra e a lógica

O blog do jornalista Reinaldo Azevedo, o mais importante blog de análise política brasileiro, tem muito a ensinar a quem se preocupa com a comunicação on-line de sua empresa. Atuar na web pressupõe entender como a mídia se organiza e cresce, foco do livro divulgado neste MatrizMKT.

¶ O tema é amplo, por isso será dividido em três ou quatro artigos. Pra começar, um assunto querido de muita gente engajada: jornalismo cidadão e democracia. Com lado.

> Pule para estes tópicos, neste texto: Juliano Spyer, Conectado, Ohmynews, Ana Carmen Foschini, Roberto Taddei, Conquiste a Rede, turma do “Epa”, PS: Glauber?

EM 24 DE JUNHO DE 2007, às 18h57, o blog do Reinaldo Azevedo fez um ano de vida. Brasileiros deveriam soltar fogos e comemorar o primeiro aniversário do mais importante veículo de comunicação criado nos últimos tempos, na web brasileira. Mais que jornalismo, seu blog é uma lição de vida e, principalmente, uma aula diária sobre teoria política, filosofia e outras coisas fundamentais, mas que legamos ao léu, como a lógica.

Imperdível a leitura, se você é um habitante desse solo gentil ao sul do equador, mas quer mais subsídios para entender como o Brasil de hoje engenha o país de amanhã. Isso também impacta sua empresa e a sociedade. A gente não quer só comida — e faturamento, essas coisas.

Para quem acompanha essas cartinhas, seu blog não é novidade. Em agosto de 2006, publiquei aqui um comentário sobre a chegada dele e de Luis Nassif ao mundo on-line, mais especificamente à tal bloguosfera. Ao longo desse ano, muita coisa rolou, o que inclui um acirramento de ânimos entre dois. Nem vou entrar no mérito...

Limitado ao lado meramente técnico, é muito interessante ver como evoluiu a experiência blogueira desses dois experientes jornalistas. Muitas lições de marketing editorial. Muitas lições para quem quer organizar sua comunicação institucional, com certeza. Leia no próximo texto.

Ah!: Reinaldo é facilmente taxado de ter uma linha política de direita. Quem diz, claro, deve ser de esquerda. Essa questão conceitual não cabe neste sítio, mas será tratada nesse texto (e nos próximos) no que for necessário.

Num resumo cruel: tio Rei, apelido que acatou e adota, não perde muito tempo com o carimbo ideológico. Ele se define como um conservador. Mas, se o mundo impõe duas posições políticas binárias, ele se assume como direita com muita tranqüilidade, mesmo sabendo que não é um direitista na concepção pejorativa que a palavra assume, aqui no Brasil. Dado o nível das coisas, isso é o de menos.

O fato é que coube a um jornalista da velha imprensa e, digamos, de direita, fazer hoje o melhor jornalismo on-line do país, ou no mínimo o mais contundente, com direito a saborosas pitadas de jornalismo cidadão, o que ideologicamente é uma fina ironia. E faz isso com um ingrediente fundamental: muita audiência.

Seu blog está na vanguarda de muitos dos temas que incendiaram o país ao longo desses meses de existência. Na vanguarda, literalmente: sua crônica, às vezes de temas do mundo, é ágil como um raio. Quando a opinião política e os jornais como Estadão e Folha estão indo, ele já votou.

Suas armas são poucas e mortíferas: dois pés firmemente fincados sobre seus princípios, uma cabeça arejada pela lógica, e o domínio da palavra escrita.

Seu radicalismo existe por afirmar, em todos os momentos, os seus princípios, pilares plantados em chão firme. É um radical no conceito original da palavra, a raiz.

Quem planta tomate, colhe tomate. Quem planta democracia, colhe democracia. Quem tem o totalitarismo entranhado nas suas raízes, colhe um fruto totalitário, por mais que as folhinhas da árvore gritem: “Somos democráticas! Somos democráticas!” Sabe de qual partido político estamos falando?... Pitu!

Munido de fundamentos e lógica, Reinaldo consegue fazer uma análise sempre coerente e muito sólida, com a vantagem de ser rigorosamente “a quente”: seus comentários acontecem quase imediatamente aos fatos, uma velocidade que apenas as características do blog permitem, com esse nível de profundidade.

Some à receita fartas doses de talento, experiência, conhecimento teórico e prático, e, sim, história e histórias de vida, regadas com humor elegante. Um blog, afinal, é uma visão pessoal, uma janela particular para o mundo.

Ele pegou a embocadura da flauta blogueira, gostou, e criou um estilo. Sua marca precisa mais? Por fim, junte uma saudável propensão para farejar assuntos polêmicos e comprar brigas com qualquer um.

Seu blog tirou a poeira das coisas, e conseguiu o que para muitos é impossível: a política não é um ambiente mofado, mas um xadrez emocionante, em constante mutação, com lances diários quase eletrizantes. É verdade. Mas para entender é preciso lê-lo com algum desprendimento, claro.

Outra coisa: num primeiro instante, até parece que as esquerdas, políticos de variados matizes e o governo Lula são os grandes criticados pelo seu olhar certeiro. São. Porém, tenho a impressão de que é na tal grande imprensa onde seu trabalho fere mais.

No governo — qualquer governo — é fácil bater. Político — qualquer político — está acostumado a apanhar. Tirar o véu de algumas pessoas ou posições ditas “progressistas”, que a imprensa agasalha, já é mais difícil.

Devo tratar disso no próximo artigo, onde tentarei analisar alguns aspectos técnicos de sua empreitada e retomar um pouco o histórico entre esse e outros blogs de política e semelhantes. Também será importante comentar sua ligação com a Veja, da qual é um colunista espaçado (publica um artigo por mês, ou textos esporádicos). Bem que avisei: o tema é amplo...

Retomando um pouco a meada. No quesito “blog-David” versus “grande imprensa-Golias”, um bom exemplo foi sua cobertura da confusão da USP, no primeiro semestre de 2007. Reinaldão colocou todos os jornalões pra comer poeira, antecipou análises em dias ou semanas, esclarecendo seus leitores antes, durante e depois da saída dos estudantes, algo que se arrastou por quase 40 dias.

Acompanhei de perto: se ficasse apenas na grande imprensa, jamais teria o entendimento amplificado do tema sem seu trabalho. Sabe como é: leitura comparada de mídias, coisa que aprendi na escola de comunicação...

A ironia em relação ao jornalismo cidadão vem do fato de que essa experiência tem, na sua gênese, um viés de esquerda, algo socializante. O entendimento é que a informação do cidadão comum teria uma força de "verdade" além daquela vista em grandes veículos, todos "dominados" pelas forças do capital e pelos diversos filtros comuns a esses veículos.

No caso da USP, foi ele quem melhor praticou essa modalidade por aqui, ao abrir espaço para a visão da "maioria silenciosa" muito antes da ficha cair na grande imprensa. E fez isso com audiência, é bom frisar. Sem audiência, é fácil fazer essas brincadeiras. Veja o comentário de domingo, 10 de junho:

"O Estadão deste domingo, conforme se informou ontem aqui, traz um vasto e excelente material sobre a invasão da Reitoria da USP. Finalmente, a imprensa diária cumpre o seu papel e traz um retrato do que acontece por lá, com riqueza de detalhes. Aos leitores deste blog, talvez não seja grande novidade. Como vocês sabem, fiz aqui a mais ampla cobertura do caso com a ajuda de centenas de repórteres: os alunos da USP. Eles me mandavam informes de lá — inclusive de dentro da Reitoria, para irritação dos bobinhos."

Blog que desafia a mídia, com lado

Tenho a impressão de que o colega Juliano Spyer, que responde por importantes projetos como o LeiaLivro e o VivaSP, e autor do recente livro Conectado, poderia rever seu comentário no Webinsider sobre blogs:

"A nossa blogosfera ainda não desafiou a elite da mídia nacional pelo domínio da esfera pública. E talvez isso nunca aconteça. ..."

Humm... Provavelmente, Juliano esteja se referindo à blogosfera de esquerda, talvez a única que ele considere “nobre” o suficiente para ser... blogosfera. Bem, o blog do Reinaldo não só desafia a mídia nacional como dá banho de análise, informação e jornalismo.

O diferencial é que ele faz isso com lado. Lá não tem espaço para meio-tom, em-cima-do-murismo ou aquele jeito mineiro de equilibrar opostos, sem se comprometer com um ou com outro, muito pelo contrário. OK, conciliar opostos é uma arte, mas há um limite para tudo.

Poucos têm tutano para comprar a briga da palavra clara. Por isso, o resultado geral de seu trabalho é excelente. Ele é um novo e bom exemplo da tal web 2.0, termo cujos defensores adotam para descrever a natureza “orgânica, social e emergente” da internet, nas palavras do próprio Spyer. O bacana é que isso serve para qualquer lado.

Não há como negar que tio Rei agrega conhecimento, qualidade, inteligência e uma nova pluralidade à grande rede. E também não dá para esconder que sua influência no ambiente político e no jornalismo diário, pelo menos dos dois principais jornais paulistanos, é sentida na prática, embora seja difícil comprovar sem um estudo minucioso — com o gravame de que os protagonistas atuais da grande imprensa dificilmente reconhecerão isso algum dia.

O bom resultado desse trabalho é atestado pelo fato de ter isso o primeiro blogueiro a ser convidado a debater no Senado, como foi publicado em junho de 2007, no sítio da instituição:

“O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Raimundo Cezar Britto Aragão, o jurista Dalmo Dallari e a presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Carmem Silveira de Oliveira, estão convidados para a audiência pública que a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) realiza nesta quinta-feira (21), a partir das 9h, sobre a redução da maioridade penal. Para o debate, também foram convidados o sociólogo e jornalista José Maria e Silva e o colunista da revista Veja Reinaldo Azevedo. Os dois profissionais vêm debatendo o assunto em artigos e fóruns pela Internet. (...)”

Não é pouco para menos de um ano de rede, mesmo com uma Veja nas costas.

Seu blog também serve de inspiração para movimentos de protesto, ou seja, caiu no gosto do povo, está vivo, anda nas ruas. Isso também é bastante inédito por aqui.

OK, às vezes, Reinaldo exagera a mão pesada da crítica (ou talvez apenas responda na mesma moeda da ignorância geral dos comentários que chegam ou são publicados alhures), mas isso é pequeno diante das diversas contribuições geniais, e natural num trabalho incrivelmente solo, feito de bermuda e chinelão, na sala de casa. Afinal, todos temos dias em que acordamos de pavio mais curto.

O cidadão também tem lado

Lado pra cá, lado pra lá, o próprio conceito de jornalismo cidadão é outra “ameaça” ao jornalismo tradicional. Tratado inicialmente como uma solução com viés de “esquerda”, para combater a “grande imprensa”, nas águas pluralistas da web o resultado pode ser bem diferente. Talvez os “cidadãos” tenham muito mais a dizer do que julga a “esquerda” e talvez ela não goste muito disso

Uma das experiências mais bem sucedidas desse tipo de iniciativa é o jornal coreano Ohmynews, que entrevistou, também em junho, a ex-colega de redação Ana Carmem Foschini. O “gancho” foi a série Conquiste a Rede, quatro livros escritos por ela em parceria com o também jornalista Roberto Romano Taddei.

O jornalismo cidadão é um movimento global, não poderia deixar de ser, que puxa a sardinha para o que se pensa ser um novo modo de entender o mundo: a visão do leigo. Isso também é um angu, com pãos, pães e “opiniães” para todos os lados...

O blog do Reinaldo também é um experimento sobre como fazer esse tipo de coisa acontecer, como se verá no(s) próximo(s) artigo(s). Mas — surpresa! —, há mais técnica do que parece a princípio, e fundamentos seculares do jornalismo também estão presentes.

Talvez a “esquerda” acabe descobrindo que a web é muito mais libertária do que ela gostaria que fosse, o que justifica iniciativas discutíveis — e caras — como a tal tevê pública, por exemplo: é mais fácil manipular uma tevê nesses moldes do que um ambiente sem qualquer controle.

Mas é em função de ter lado que finalizo esse primeiro texto: quando comentei a ida dos dois jornalistas, Nassif e Azevedo, para a lida blogueira, acabei “mineirando” um pouco. Os dois saíram praticamente juntos, mas seguem caminhos opostos.

A evolução dos dois ao longo desse tempo é emblemática, no meu julgamento, ao menos. Cada um, cada um, leia e compare, e tire você mesmo suas conclusões.

Turma do “Epa”

Demorei mais do que o previsto para retomar essas pequenas cartas ao leitor e não deixar dúvidas. Por isso, aviso: esta Matriz também tem lado — o lado da turma do “epa”, o lado onde as coisas têm nome, o lado da democracia, da liberdade, o lado da turma do Reinaldo.

Ao contrário do que orientou Luis Fernando Veríssimo no seu artigo crítico ao movimento Cansei, estou olhando para os lados e vendo com quem ando, sem vergonha, unido pelo viés básico do estado de direito, algo que aprendi na escola com meus professores... de esquerda!

As coisas não estão fáceis sob a luz do sol democrático brasileiro. O país corre o risco de rachar ao meio do pior jeito: de forma artificial, via subsídios. Se liga, leitor, todo cuidado é pouco.

Pauta do próximo texto, previsto para algum dia deste 2007: por trás de um blog influente e assertivo, as velhas e boas técnicas editoriais de sempre; e um fundamento do planejamento estratégico: defina seu público — e fique com ele.

Cp

PS: Não sei, mas é bem provável que Tio Rei deteste Glauber Rocha. Se for o caso, fica por conta da ironia da moda atual, a permuta de ícones entre esquerda e direita.

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